terça-feira, 2 de julho de 2024

I - Nascido “Sob Música”         (Capitulo I do livro O Resgate de Uma Era)

“Born Under a Good Sign”[1]

 

Engraçado, nunca perguntei isso a meus pais, mas eu acho que nasci “sob música”. É bem provável que enquanto o Doutor Hélio me trazia ao mundo estivesse ele cantarolando alguma velha canção melódica dos anos 50, ou algum samba-canção do Lupicínio Rodrigues, alguma marchinha carnavalesca ou até mesmo algum “Rock Around The Clock”, grande sucesso naquele Ano do Senhor de 1954!

Meu querido pai, Mário, é um poeta nato, que costumava declamar suas poesias e tocar seu pandeiro cantando serenatas enquanto cortejava minha querida mãe, Dona Jueci. É bem provável portanto, que meu DNA contenha algum resquício de musicalidade.

Assim nasci, passando minha infância e pré-adolescência na pequena localidade de Areião, onde vivi até minha maioridade junto com meus pais e irmãos num velho casarão a beira da estrada RS122, ali bem na divisa dos municípios de São Sebastião do Caí e Portão, dentro do meu querido Rio Grande do Sul.

Meus primeiros anos foram embalados ao som do bom e velho rádio, ouvindo os sucessos das Rádio Farroupilha, Rádio Gaúcha, Rádio Guaíba, Rádio São Leopoldo e até mesmo da Rádio Tupi de São Paulo, cujas ondas médias chegavam até o Rio Grande.

A programação radiofônica era formada pelas novelas ou rádioteatro, futebol, o saudoso Repórter Esso e obviamente de todo o tipo música: sambas e marchinhas carnavalescas, boleros, canções melódicas dos anos 50,  tangos argentinos, canções sertanejas e música gaúcha, a qual naquela época ainda era bem diferente de qualquer outro tipo de música ouvida ou tocada nos demais estados do Brasil.

Além do tradicionalíssimo “Correio do Povo”, líamos O Cruzeiro, a Revista Manchete, todos os tipos de almanaques com destaque para o “Almanaque Biotônico Fontoura”, a publicação jesuíta “Anuário Inaciano” a internacional “Seleções do Reader’s Digest” e a famosíssima “O Rouxinol”, que minha Tia Diva colecionava e que trazia todas as novidades do mundo musical. E assim o foi desde que me lembro.

Meus primeiros contatos com músicos e seus  instrumentos foram ainda muito cedo, através dos grupos de “terno” e serenatas e que frequentavam nossa casa a cada final ou início de ano.

A estrutura do terno era baseada em versos improvisados, cantados ou “puxados” por um bom repentista, chamado de Mestre do Terno, seguido por um grupo vocal de duas, três, ou mais vozes, repetindo exatamente as frases que o Mestre cantava. A melodia corria sobre uma profunda harmonia chamada de toada do terno, criando uma espécie de “mantra” que poderia variar de acordo com a tradição do grupo ou o motivo do terno.

O instrumental do terno era composto basicamente por violão, viola, “cordeona” ou “gaita-piano”, como era chamado o acordeon lá no sul. Poderia também ter um banjo, cavaquinho, bandolim, pandeiro e, já mais raro, até mesmo um violino.

Para mim era uma verdadeira festa. Quando o terno chegava, meu pai apagava todas as luzes da casa e abria uma pequena fresta da porta da sala para escutar a linda cantoria que começava lá fora nos degraus da porta e sob a luz da lua.

Pela porta entreaberta meu pai passava os copos com cachaça ou outra bebida quente e fazia o pessoal cantar até que o mestre em versos reclamasse, dizendo que vinham de longe e estavam cansados,  pedindo então que a porta fosse aberta e a devida licença para entrar. Tudo isso em versos muito bem rimados.

Meu pai abria a porta, acendia as luzes e o terno entrava, cantava algumas estrofes saudando o presépio de Natal ou a data comemorativa e fazia uma pausa, quando então todos se cumprimentavam, sentavam-se e as duplas de violeiros e gaiteiros acompanhados dos demais músicos executavam lindas e antigas canções do folclórico, sertanejo e do gauchesco.

Minha mãe servia um café com todo tipo de doces e salgados enquanto a cuia de chimarrão e o copo da melhor cachaça eram passados de mão em mão, seguindo assim até alta madrugada, quando a caravana se despedia cantando. Muitas vezes seguiriam adiante para outras casas e quando assim o faziam, meu pai os acompanhava também cantando Terno.

Aquelas noites normalmente iriam se repetir algumas vezes naquele período de final de ano, terminando oficialmente a temporada no dia 6 de janeiro, o dia de Santos Reis, com o chamado Terno de Reis. Havia também o denominado “terno temporão” que era cantado fora do período natalino. Eu e meu irmão Cláudio ficávamos a espera de uma noite de terno, realmente uma grande festa musical.

Outra fonte de contato com músicos eram as festas de igreja, católicas e evangélicas ou protestantes, como costumavam estas serem chamadas. Meus pais, católicos atuantes, seguidamente eram voluntários “festeiros”, responsáveis pela organização das festas nos galpões das igrejas ou galpões paroquiais.

Os festeiros trabalhavam duro para arrecadar fundos e donativos para a festa, que às vezes durava mais de um dia, começando num sábado e terminando no domingo à noite.

Eu sempre ia de caminhão com meu pai, no domingo bem cedinho buscar a orquestra que era chamada de “bandinha” ou “Jazz”. Não perdia aquelas oportunidades de me aproximar dos músicos a ponto de me ser permitido subir no “coreto”, normalmente um pequeno reduto meio improvisado dentro do pavilhão, ornado de galhos de taquara e folhas de coqueiro, alí  ficava a bandinha.

Os instrumentos das bandinhas eram os de uma mini orquestra ou um conjunto de jazz tradicional: um ou dois trumpetes, sax alto e tenor, clarinete, um ou dois trombones e de vez em quando aparecia também uma enorme tuba. A sessão rítmica era formada por uma bateria composta por um “snare” (tarol ou caixa) e um tambor de “ton-ton”, um prato dependurado por uma tirinha de couro e um enorme bumbo. Ainda não havia peles de “nylon”, portanto todas as peles dos tambores eram de couro legítimo! Era comum ter o acompanhamento de um banjo, cavaquinho e um violão às vezes elétrico. Mais raramente haveria também um “upright-bass”, conhecido como “rabecão”.  

As músicas eram basicamente orquestrações de marchinhas de carnaval, marchas marciais, sambas, boleros, chá-chá-chá, mambos, salsas, polkas, passo-doble, fox, baião, muitas valsas e dobrados, orquestrações jazzísticas do tipo New Orleans ou “Diexieland[2], etc.

A música corria solta desde o final da missa das nove da manhã até lá pelas nove da noite. E lá estávamos eu e o Cláudio, participando daquilo tudo.

Uma das orquestras que se destacavam era o “Jazz Espia Só” de São Sebastião do Caí. Muitas vezes fui junto com meu pai buscá-los no domingo bem cedinho e ao final da festa levá-los de volta ao Caí.

Outra fonte de emoção e aprendizado musical era o coral ou coro da igreja sempre acompanhado pelo órgão. Era muito bonito pela harmonia das vozes e pela emoção das melodias religiosas, cantadas sob o reverber natural das igrejas. Aquele era um tipo de música séria, enquanto que as bandinhas certamente eram mais “profanas” e divertidas...


 



[1] “Nascido sob um bom Signo”, paráfrase do título de um Blues escrito por Booker T. Jones e imortalizado por Albert King: “Born Under a Bad Sign”.

 

[2] Dixieland - estilo antigo do Jazz, desenvolvida em New Orleans –EUA, no início do século XX.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Eu e "A Dama Elétrica"


Eu e "A Dama Elétrica"

Num sábado frio e chuvoso, ainda de ressaca da “Friday night Blues” saí atrás de um anuncio de venda de um Órgão Hammond nos classificados do “craigslist”, num local que vendia instrumentos usados lá pelo "Lower Manhattan".
Achei o endereço, mas a pequena loja de penhores que estava fechada... Continuei caminhando sem rumo pelas ruas do Village, quase ninguem na rua molhada e gelada, quando um adolescente branco passou por mim carregando nas costas uma guitarra num softcase... Chamei por ele que rapidamente me olhou e perguntei-lhe se conhecia alguma loja de equipamentos musicais, de teclados vintage... Ele me respondeu “Nope...Sorry”... E logo adiante entrou num prédio marrom, quadrado e com janelas de vidro...
Às suas costas a porta que se fechou trazia escritas em letras um tanto difíceis de se ler as palavras “Electric Lady Studios”... Parei de imediato, como que atingido por uma rajada fulminante de lembranças ao ler aquele nome e ver aquela fachada comum e sem qualquer atrativo. Ali permaneci por um bom tempo parado, catatônico, olhando e meditando sobre o que aquelas paredes já haviam visto, ouvido e vivido e o que aquele prédio quadrado e marrom significou para o mundo da musica da segunda metade do século XX e para futuras gerações.
Quando mais eu olhava mas eu recebia pensamentos e sensações graves e nostalgicas, mais hipnotizado ficava... Não sei quanto tempo ali permaneci, sob aquele chuvisqueiro já quase virando neve. Não tive coragem de entrar, a visão daquela fachada acinzentada pelo tempo me parecia melhor do que ver uma provável sala de escritório com telefones, secretarias e um computador, nao queria quebrar aquele mágivo torpor. Saí devagar, caminhando ao som das memorias, como levado nas asas invisíveis de uma Little Wing.
Fiquei lá fora com minhas memórias e meus estranhos devaneios, imaginando que muito provavelmente aquele garoto  branco de olhos azuis não estaria ali hoje carregando sua stratocaster se um garoto negro não tivesse ali entrado meio século antes na mesma porta de vidro com as palavras Electric Lady Studios...
Ah, sim o nome do Garoto negro? James Marshal Hendrix, mais conheciedo como um tal "Jimmi", de sobrenome Hendrix.


Notas: 
Craigslist - lista de anuncios classificados mais famosa e utilizada nos EUA
Lower Mahnattan - parte sul da ilha de Manhattan
Village  ou Greenwich Village - bairro boemio de Nova Iorque
Electric Lady Studios - o mais famosos estudio de gravacoes musicas de Nova Iorque, ali gravaram artistas como Steve Winwood, Ron Wood, Patty Smith, David Bowie, Rolling Stones, Led Zeppelin, Stevie Wonder, dentre outros icones além do mais famoso deles, o entao garoto negro James Marshal Hendrix ou Jimi Hendrix que tornou o Electric Lady o mais famoso dos estudios.
Little Wing - musica composta e gravada por Jimi Hendrix em 1967, parte das cem maiores musicas de todos os tempos.
Stratocaster - modelo de guitarra fabricado pela Fender, utilizada por Jimi Hendrix, provavlemente o mais famoso modelo de guitarra eletrica já fabricada.
 
 
Electric Lady Studios - WikipediaThe Virtual Village (Ep9 Electric Lady Studios, 52 West 8th, 53% OFFElectric Lady Studios - WikipediaJimi Hendrix's Electric Lady Studios ...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

PRIMEIRA INTRODUÇÃO INICIAL

Alo todos aí!


       Estou iniciando, tardiamente, o que se chama de Blog, pelo menos essa é minha intenção... Estou ainda tateando, mas tenho esperança que terei êxito...

Então, meu objetivo aqui é registrar historias, casos, fatos verdadeiros ou nem tanto assim, mas com uma boa dose de verdade ou de imaginação.
É provável que exponha aqui alguns capítulos de meu livro sobre minhas andanças musicais ao longo dos últimos 60 anos, ou seja, muito provavelmente desde antes de você ter vindo a este mundo nesta existência.
Para os amigos que ainda não me conhecem, eu tenho uma visão critica da vida pelo seu lado brincalhão, provável herança paterna, embora nem sempre otimista. De qualquer forma, creio que é melhor rir do que lamentar... Às vezes também sou um tanto irônico, mas no sentido construtivo.

Bem, não vou falar muito de mim para evitar que vocês venham a conhecer minhas falhas e fraquezas, as quais certamente não as possuo... Como podem ver, também sou modesto...

Bem vamos ver como isso funciona, vou finalizar essa primeira apresentação que chamarei pelo titulo um tanto "sexual" de "minha primeira introdução inicial"...

PS. quero ver como se abre isso para os comentários de voces, sem eles isso não teria graça alguma...