I - Nascido “Sob Música” (Capitulo I do livro O Resgate de Uma Era)
“Born Under a Good Sign”[1]
Engraçado, nunca perguntei isso a meus pais, mas eu acho que nasci “sob música”. É bem provável que enquanto o Doutor Hélio me trazia ao mundo estivesse ele cantarolando alguma velha canção melódica dos anos 50, ou algum samba-canção do Lupicínio Rodrigues, alguma marchinha carnavalesca ou até mesmo algum “Rock Around The Clock”, grande sucesso naquele Ano do Senhor de 1954!
Meu querido pai, Mário, é um poeta nato, que costumava declamar suas poesias e tocar seu pandeiro cantando serenatas enquanto cortejava minha querida mãe, Dona Jueci. É bem provável portanto, que meu DNA contenha algum resquício de musicalidade.
Assim nasci, passando minha infância e pré-adolescência na pequena localidade de Areião, onde vivi até minha maioridade junto com meus pais e irmãos num velho casarão a beira da estrada RS122, ali bem na divisa dos municípios de São Sebastião do Caí e Portão, dentro do meu querido Rio Grande do Sul.
Meus primeiros anos foram embalados ao som do bom e velho rádio, ouvindo os sucessos das Rádio Farroupilha, Rádio Gaúcha, Rádio Guaíba, Rádio São Leopoldo e até mesmo da Rádio Tupi de São Paulo, cujas ondas médias chegavam até o Rio Grande.
A programação radiofônica era formada pelas novelas ou rádioteatro, futebol, o saudoso Repórter Esso e obviamente de todo o tipo música: sambas e marchinhas carnavalescas, boleros, canções melódicas dos anos 50, tangos argentinos, canções sertanejas e música gaúcha, a qual naquela época ainda era bem diferente de qualquer outro tipo de música ouvida ou tocada nos demais estados do Brasil.
Além do tradicionalíssimo “Correio do Povo”, líamos O Cruzeiro, a Revista Manchete, todos os tipos de almanaques com destaque para o “Almanaque Biotônico Fontoura”, a publicação jesuíta “Anuário Inaciano” a internacional “Seleções do Reader’s Digest” e a famosíssima “O Rouxinol”, que minha Tia Diva colecionava e que trazia todas as novidades do mundo musical. E assim o foi desde que me lembro.
Meus primeiros contatos com músicos e seus instrumentos foram ainda muito cedo, através dos grupos de “terno” e serenatas e que frequentavam nossa casa a cada final ou início de ano.
A estrutura do terno era baseada em versos improvisados, cantados ou “puxados” por um bom repentista, chamado de Mestre do Terno, seguido por um grupo vocal de duas, três, ou mais vozes, repetindo exatamente as frases que o Mestre cantava. A melodia corria sobre uma profunda harmonia chamada de toada do terno, criando uma espécie de “mantra” que poderia variar de acordo com a tradição do grupo ou o motivo do terno.
O instrumental do terno era composto basicamente por violão, viola, “cordeona” ou “gaita-piano”, como era chamado o acordeon lá no sul. Poderia também ter um banjo, cavaquinho, bandolim, pandeiro e, já mais raro, até mesmo um violino.
Para mim era uma verdadeira festa. Quando o terno chegava, meu pai apagava todas as luzes da casa e abria uma pequena fresta da porta da sala para escutar a linda cantoria que começava lá fora nos degraus da porta e sob a luz da lua.
Pela porta entreaberta meu pai passava os copos com cachaça ou outra bebida quente e fazia o pessoal cantar até que o mestre em versos reclamasse, dizendo que vinham de longe e estavam cansados, pedindo então que a porta fosse aberta e a devida licença para entrar. Tudo isso em versos muito bem rimados.
Meu pai abria a porta, acendia as luzes e o terno entrava, cantava algumas estrofes saudando o presépio de Natal ou a data comemorativa e fazia uma pausa, quando então todos se cumprimentavam, sentavam-se e as duplas de violeiros e gaiteiros acompanhados dos demais músicos executavam lindas e antigas canções do folclórico, sertanejo e do gauchesco.
Minha mãe servia um café com todo tipo de doces e salgados enquanto a cuia de chimarrão e o copo da melhor cachaça eram passados de mão em mão, seguindo assim até alta madrugada, quando a caravana se despedia cantando. Muitas vezes seguiriam adiante para outras casas e quando assim o faziam, meu pai os acompanhava também cantando Terno.
Aquelas noites normalmente iriam se repetir algumas vezes naquele período de final de ano, terminando oficialmente a temporada no dia 6 de janeiro, o dia de Santos Reis, com o chamado Terno de Reis. Havia também o denominado “terno temporão” que era cantado fora do período natalino. Eu e meu irmão Cláudio ficávamos a espera de uma noite de terno, realmente uma grande festa musical.
Outra fonte de contato com músicos eram as festas de igreja, católicas e evangélicas ou protestantes, como costumavam estas serem chamadas. Meus pais, católicos atuantes, seguidamente eram voluntários “festeiros”, responsáveis pela organização das festas nos galpões das igrejas ou galpões paroquiais.
Os festeiros trabalhavam duro para arrecadar fundos e donativos para a festa, que às vezes durava mais de um dia, começando num sábado e terminando no domingo à noite.
Eu sempre ia de caminhão com meu pai, no domingo bem cedinho buscar a orquestra que era chamada de “bandinha” ou “Jazz”. Não perdia aquelas oportunidades de me aproximar dos músicos a ponto de me ser permitido subir no “coreto”, normalmente um pequeno reduto meio improvisado dentro do pavilhão, ornado de galhos de taquara e folhas de coqueiro, alí ficava a bandinha.
Os instrumentos das bandinhas eram os de uma mini orquestra ou um conjunto de jazz tradicional: um ou dois trumpetes, sax alto e tenor, clarinete, um ou dois trombones e de vez em quando aparecia também uma enorme tuba. A sessão rítmica era formada por uma bateria composta por um “snare” (tarol ou caixa) e um tambor de “ton-ton”, um prato dependurado por uma tirinha de couro e um enorme bumbo. Ainda não havia peles de “nylon”, portanto todas as peles dos tambores eram de couro legítimo! Era comum ter o acompanhamento de um banjo, cavaquinho e um violão às vezes elétrico. Mais raramente haveria também um “upright-bass”, conhecido como “rabecão”.
As músicas eram basicamente orquestrações de marchinhas de carnaval, marchas marciais, sambas, boleros, chá-chá-chá, mambos, salsas, polkas, passo-doble, fox, baião, muitas valsas e dobrados, orquestrações jazzísticas do tipo New Orleans ou “Diexieland”[2], etc.
A música corria solta desde o final da missa das nove da manhã até lá pelas nove da noite. E lá estávamos eu e o Cláudio, participando daquilo tudo.
Uma das orquestras que se destacavam era o “Jazz Espia Só” de São Sebastião do Caí. Muitas vezes fui junto com meu pai buscá-los no domingo bem cedinho e ao final da festa levá-los de volta ao Caí.
Outra fonte de emoção e aprendizado musical era o coral ou coro da igreja sempre acompanhado pelo órgão. Era muito bonito pela harmonia das vozes e pela emoção das melodias religiosas, cantadas sob o reverber natural das igrejas. Aquele era um tipo de música séria, enquanto que as bandinhas certamente eram mais “profanas” e divertidas...
[1] “Nascido sob um bom Signo”, paráfrase do título de um Blues escrito por Booker T. Jones e imortalizado por Albert King: “Born Under a Bad Sign”.
[2] Dixieland - estilo antigo do Jazz, desenvolvida em New Orleans –EUA, no início do século XX.

